Há nutrientes que chamam a atenção e outros que sustentam tudo em silêncio. O magnésio pertence ao segundo grupo, e quatro trabalhos recentes colocam-no em destaque para nós. O primeiro, uma revisão de 2018 assinada por James DiNicolantonio e James O’Keefe, lança um alerta claro: a falta “discreta” de magnésio — aquela que não provoca sintomas evidentes — está associada a maior hipertensão, arritmias e eventos cardiovasculares, especialmente com o avançar da idade. Não basta não estar “muito baixa”; um valor considerado normal pode continuar a ser insuficiente para proteger o miocárdio e a elasticidade das artérias.

Essa ideia está alinhada com a perspetiva publicada em Advances in Nutrition (2016), que propõe ajustar o “termómetro” clínico: aumentar o limite inferior do magnésio sérico para 0,85 mmol/L (em vez dos clássicos ~0,75). O motivo? Abaixo desse valor aumentam de forma consistente a inflamação de baixo grau, a resistência à insulina, a tensão arterial “rebelde” e as alterações do ritmo cardíaco. Além disso, o magnésio raramente é medido nas análises clínicas e, nos raros casos em que é feito, é importante lembrar que a análise sanguínea é apenas uma fotografia do momento e nem sempre reflete o que acontece dentro das células, onde o magnésio atua como um verdadeiro maestro do metabolismo.
A visão completa-se com uma revisão ampla publicada na Cureus em 2024: quando o magnésio falha — mesmo que seja pouco — o corpo inteiro sente. No coração e nos vasos sanguíneos, ajuda a manter um ritmo estável e a pressão dentro do intervalo saudável; no metabolismo, melhora a sensibilidade à insulina; no cérebro, suaviza a resposta ao stress e favorece o descanso; nos músculos e nos ossos, reduz cãibras e apoia a mineralização. Não é por acaso que muitas mulheres apresentam níveis baixos: dietas pobres em leguminosas e folhas verdes, stress prolongado ou determinados fármacos esgotam as reservas sem darmos por isso.
Dos dados para a tua rotina, sem complicações
A quarta peça, uma revisão sistemática da Cureus (2024), aborda dois aspetos do dia a dia: ansiedade e sono. Após selecionar ensaios com medidas validadas, cerca de metade dos estudos mostrou melhorias na qualidade do sono e na ansiedade autorreferida com suplementação de magnésio. O padrão prático é útil: doses adequadas (geralmente entre 300–400 mg/dia) e várias semanas de constância fazem a diferença; quando não houve efeito, normalmente tinham sido usadas quantidades baixas ou formas pouco absorvíveis. Também importa o tipo de sal escolhido: o óxido é pior absorvido; o glicinato ou bisglicinato são melhor tolerados. Quanto à segurança, o perfil é favorável quando a função renal é normal: o efeito adverso mais comum é um trânsito intestinal mais solto se a dose for mais alta do que o necessário.

E então… e agora o que faço?
Começa pelo prato: um punhado de amêndoas ou sementes de abóbora, vegetais de folha verde, leguminosas, aveia e cacau puro aproximam-te rapidamente dos 310–320 mg/dia de que uma mulher adulta precisa (um pouco mais na gravidez e amamentação). Se mesmo assim sentes que ficas aquém ou procuras um apoio extra para o sono, a ansiedade, os ossos ou a pressão arterial, considera suplementar: na prática, costuma funcionar bem começar com 100–150 mg de magnésio elementar por dia e aumentar gradualmente até 200–400 mg/dia, sempre com comida (ou à noite, se o objetivo for dormir melhor). Escolhe formas bem absorvíveis: glicinato/bisglicinato (suave para o estômago e útil para a calma e o descanso). Evita o óxido se te causar desconforto ou se não sentires efeito. Sinais de que está na hora de reduzir um pouco a dose: fezes mais moles ou cólicas.
Pequenos ajustes, bem escolhidos, podem transformar-se em dias mais serenos, noites mais profundas e um coração que bate sem sobressaltos.
Referências
- Subclinical magnesium deficiency: a principal driver of cardiovascular disease and a public health crisis
- Perspective: The Case for an Evidence-Based Reference Interval for Serum Magnesium: The Time Has Come
- Magnesium Matters: A Comprehensive Review of Its Vital Role in Health and Diseases
- Examining the Effects of Supplemental Magnesium on Self-Reported Anxiety and Sleep Quality: A Systematic Review